domingo, 23 de junho de 2013

conteúdo esboçado para reformular desenvolver e publicar

Este sítio virtual objetiva expressar demandas por registros de pesquisa: campos, referenciais e dicas de organização para a transformação de um texto – um tanto expeculativo, limitado e lacunar – em artigo algo mais publicável, um acúmulo com suas arestas em trabalho harmonizado ou harmonizável. A esperança é de encontrar um orientador disponível para que as demandas se especifiquem e se transformem nas mais sugestivas.

 O humor de tiozões traduzido... “em um livro com “Platão” no título”
                                                                        Por Ethon Fonseca

1.1   – Assunto, propósito e... introdução!
                                Faremos neste artigo uma interpretação tradutória do humor manifesta em capítulo da versão brasileira, de José Rubens Siqueira, para Plato and a platypus walk into a bar... understanding philosophy through jokes. Trata-se de uma obra (de 2006) bastante bem recomendada por pessoas seriamente dedicadas a outras áreas de letras/letramento e educação. Também é pautada como um New York Times bestseller – inclusive por listas de mais vendidos em França e em Israel[1].
                                “Platão e um ornitorrinco entram num bar... A filosofia explicada com senso de humor”[2], publicado pelo selo “ponto de leitura”, da editora Objetiva, em 2011, oferece narrativas em tradução dando conta de qualidades argumentativas relevantes, para os próprios textos deste livro de História de idéias filosóficas – cujos estilos (de humor e de escrita) oferecem, por sua vez, ao menos um roteiro passível de diversas, e inclusive bem tradutórias, performances.
                                O recorte – daquele capítulo que versa sobre “Filosofia da Linguagem” (o VIIo) – é roteiro para a apreciação de construção discursiva, de humor e ironia, à luz de três artigos: Sascha Hoffman e Cristina Lopes Perna são respectivamente autoras de “Me translate Funny One Day” (2012) e “Ironia e interdiscurso” (2004). Eles sugerem hipóteses interessantes para apurar um registro discursivo (Adail Sobral?) que pode ser incomum, mas muito característico – nada vago – apresentando um roteiro argumentativo irônico, enfim, em uma certa padronagem linguística, que são traços relevantes para diversos projetos e enfoques – tradutórios – mobilizando explanações, didáticas e narrativas.
                O pequeno artigo de Hoffman dá notícia de um debate garantindo serem das mais usuais complicações tradutórias as referências culturais e os jogos de palavras. Refere-se à reunião anual da American Literary Translators Association (Associação Americana de Tradutores Literários) dedicada ao tópico “The Translation of Humor, or, the Humor of Translation” (“A Tradução do Humor, ou, o Humor da Tradução”). Nela, David Bellos, um professor de Literatura Francesa e comparada em Princeton, preparando sua fala principal na coonferência, chegou a notar uma desconcertante falta de chistes iniciados com... “Um par de tradutores entram num bar.” A expressão do humor entre as línguas – tão factível, a julgar pela apreciação francesa dos filmes de Woody Allen – levaria, segundo Bellos, um pouco de criatividade, e um pouco de sorte. Seu livro “Is That a Fish in Your Ear?: Translation and the Meaning of Everything” propõe o abandono de um ideal de perfeita fidelidade tradutória para busca de uma anedota que surta alguns dos mesmos efeitos (rings some of the same bells) que o original. Desta forma, muitas frases desencadeadoras de risos (punch lines) não seriam menos passíveis de tradução (“das mórbidas às absurdas”)... do que a meteorologia. Como ainda se quer demonstrar, se não ilustrar.
                Quanto à questão da ironia, a meu ver efeito lançado em ponto “alto” do artigo, evocaremos Cristina Lopes Perna (2004), que problematiza algumas abordagens expressivas, ressaltando suas mais importantes caracterizações: 
“A ironia constitui um modo de conciliação de subjetividades, se levarmos em consideração a interação enunciador-enunciatário, uma vez que o enunciador da ironia supõe seu auditório capaz de reconstruir convenientemente e consecutivamente a citação e a contestação. O discurso irônico é um dos que mais envolve, mais convoca e exige que seu enunciatário elabore uma construção interpretativa complexa, sobre a base de uma confiança postulada por E1 [enunciador irônico]. Ocorre então uma certa conivência, uma solidariedade implícita entre o enunciador e enunciatário.”[3]

                Um terceiro artigo sobre tradução e humor, “Loss and Gain in Humor Translation; A case study of The Ethics of the Aristocrats”, de Farzad Akmali, versa também de trocadilhos, mas contrasta pelos jogos com frases originalmente feitas sobre traços linguísticos, e em alusões muito específicas, da cultura Persa, revelando uma operação de tradução literária para a qual se elabora um tipologia de textos de um humor menos “universal”. 
O relativo êxito da performance tradutória analizada aqui pode ser atribuído a diversos fatores, tanto à sorte quanto a caracerísticas qualificadoras do próprio texto original enquanto um produto de exportação, passando portanto pela seleção de narrativas, veiculadas na atualização dos respectivos balanços de idéias – ao menos fruível e compreensível para tantas e diversas culturas. Além da robustez de um imaginário em que envereda com tintas emocionais bem fortes, o próprio linguajar com o qual se plasmam tais episódios argumentativos – mas nem por isso necessariamente menos humoristicamente calibrados – encontra valores altamente análogos em nossas línguas, como por muitos dos próprios termos que elucida, e mesmo nos tratamentos mais coloquiais, como alguns lidando com patéticas patetices da vida[4].
                 
1.2   – Zinger?
Um dado momento de “Filogague: Uma Introdução”[5] sugere como humoristas estão atentos a efeitos que podem soar vertiginosos, operando em sintonia com o espanto criativo de tantos filósofos:
 “A construção e recompensa das piadas e a construção e a recompensa dos conceitos filosóficos são feitas da mesma matéria. Ambas nos estimulam a mente de formas similares. Isso porque a filosofia e as piadas provêm do mesmo impulso: confundir nossa sensação de como as coisas são, virar de pernas para o ar nosso mundo, e desencavar verdades ocultas sobre a vida, muitas vezes incômodas. O que o filósofo chama de insight, o humorista chama de zinger.”[6]
Duas páginas e piadas depois, uma proposição artística dos autores implicará no reconhecimento de campos próprios – ainda que em constante comunicação – de humores e de contemplação intelectual: “Vamos demonstrar como os conceitos filosóficos podem ser esclarecidos por piadas e como muitas piadas são recheadas de fascinante conteúdo filosófico.” Como são expressões linguísticas as que comportam e constróem tais conceitos e piadas, suas transmutações tradutórias passam a comunicar e apresentar tais “impulsos” e qualidades. Atentando para a tradução da argumentação discursiva do livro encontraremos as unidades tradutórias que expressam humores, e suas qualidades reflexivas (além de sinalizarem estados mentais não menos específicos, ainda que eventualmente implícitos).
1.3 – Quem tem língua (tem argumento analógico, e) vai à Grécia
Apresentava-se a “manobra filosófica” do “Argumento Analógico”, e a aplicação, correta ou errônea, de seu princípio – “se dois resultados são similares, devem ter uma causa similar”. O exemplo correto de Argumento Analógico era a piada do homem de 90 anos que anuncia ao médico a gravidez de sua esposa de 18 anos: o médico resolve narrar-lhe a história de um homem que foi caçar, mas levou por engano um guarda-chuva, ao invés da espingarda e, ao ser repentinamente atacado por um urso, atirou com o guarda-chuva, matando o animal. 
“O homem disse:
_ Impossível Algum outro caçador deve ter matado o urso.
O médico falou:
[“My point exactly!”:]
_Exatamente!”
O outro exemplo, mas errôneo, de Argumento Analógico, refere ao contexto de discussão do “Design Inteligente”: “se existe um globo ocular, deve existir um Designer de Globo Ocular no Céu” [7].
Existe tradução definida, portanto tradutor, e portanto projetos tradutórios... mas o que nos interessará aqui são mediações conceituais dizendo respeito à presença de espírito de cada qual – autor, humorista, tradutor ou filósofo.
                2.0 – Atacando, então, Linguagem – e capítulo VII:         
                                Entre umas e outras das tantas anedotas deste capítulo encontraremos advertências céticas e witgensteineanas contra as confusões de quadros linguísticos, em cujas interpretações habituais poderíamos não raro nos encontrar presos, William James falando em “filósofos enternecidos” e “filósofos endurecidos”, e um episódio verídico, da vida real e midiática – por fim Dimitri pensa naquilo que Tasso chama de “Filosofia” como podendo, relevantemente, ser chamado de “piada”.
Dimitri e Tasso são personagens de diálogos ligeiros que seguem à epígrafe e encerram cada um dos capítulos do livro. Dimitri é quem começa perguntando. Em “Hora da Summa: Uma Conclusão” é que Tasso pegará o microfone do Clube de Comédia Acrópole para “uma conclusiva e abrangente revisão de tudo o que aprendemos hoje”. Apenas no final do sexto capítulo é que Tasso parece iniciar o diálgo, mas imediatamente ficamos sabendo que está apenas contestando os risos de Dimitri, por se estar falando da angst da morte, esta genuína angústia existencial – e travo amargo da própria palavra – em uma vida autêntica sob a sombra da finitude... e de Heidegger, aqui tomado por... agourento. “Não é para rir.”, emenda, Tasso, e Dimitri explicará haver algo pior do que a morte – algo ainda mais específico do que humores irracíveis de existencialista, mas também tocante ao já antigo time de filósofos: “Já passou uma noite inteira com Pitágoras?”[8].
                                A epígrafe que segue, já em nosso capítulo VII, reflete à complexidade do ex-presidente William Jefferson Clinton ao encarar um interrogatório no qual respondera: “Depende de como você define `é´”[9]. Afirma ser esta uma manobra de Filosofia da Linguagem, ainda que o então presidente também pudesse estar “fazendo outras coisas”.
Dimitri: Você não me engana, Tasso. Toda essa história de filosofia não passa de jogo de palavras!
Tasso: Exatamente! Agora estamos chegando a algum lugar.
Dimitri: Então você admite! Filosofia é apenas semântica!
Tasso: Apenas semântica? De que outro jeito se poderia fazer filosofia: com grunhidos e risadas?[10]   

                2.1 – “Filosofia da Linguagem Comum” sim, jamais “Filosofia de Linguagem Ordinária”...
O humorista, como o tradutor, dificilmente esquece do tema ser o outro, do seu trabalho ser o de mexer com o interlocutor (que ele talvez até gostasse de conhecer!). Simplesmente enfileirar piadas de português, por outro lado, ou de careca, de advogado, de padre – e assim por diante – poderia colocar em risco o nosso próprio propósito (por tribal ou nobre, que fosse). O bom humor não opera precisamente os contextos da sua própria linguagem, bem como “a Filosofia”?
Uma tradução pode sim estar errada, talvez até mesmo ser maldosa, como a impertinência aludida acima do parágrafo anterior – para uma “Ordinary Language Philosophy”  “Filosofia da Linguagem Comum” é mesmo “a alternativa correta”. Esta primeira – e tão de longe a maior – das quatro secções do capítulo (as outras três somam menos de sete páginas, enquanto somente a primeira tomará nove, sem contar um interlúdio – visual, cartunesco – que lhe pertence, ao menos “espiritualmente”!). O tradutor também opera atento, dizíamos, aos contextos (e co-textos) que emprestam, em vários sentidos, significado a cada expressão: para eleger soluções tradutórias, que dinamizem um discurso, de modo no mínimo análogo (mas imprimindo ainda “tais e quais” significações) também refletirá às próprias potências da linguagem, bem como os próprios filósofos – ou humoristas – que por ventura estejam sendo traduzidos, com suas variações estilísticas e reflexivas, mesmo de hipóteses especulativas, ou então científicas. Tamanha inteligência humorística, em público, pode bem ser mobilizada para a ironia, o que não deixa de oferecer risco à própria distração, ou admiração – por exemplo, de “grunhidos e risadas”. Não gostamos que riam de esforços mais sérios, como os que geralmente nos esperam, mesmo que não saibam o que estão fazendo com o próprio futuro – como nós decerto sabemos, enquanto professores ou pessoas politizadas (para não dizer “religiosamente corretas”). Uma audiência pode ser comovente, estar segura com várias considerações irônicas, e estar mobilizada. Ainda assim, ser irônico não costuma ser um objetivo tão “sério” – quanto pode ser o de não demonizar tais e quais ironias, ou o de merecer maiores atenções. A questão é que fica sendo necessário contar com uma série de discernimentos, diferenciações, clivagens conceituais e até “intuitivas” de “bom senso” (ao menos para além de eventuais sensos comuns), até para discernir as hipóteses interpretativas mais relevantes, no contexto comunicativo – hipóteses sendo inclusive parte do entendimento de qual é a tal de graça.
Haja competência para operar com tamanha complexidade! Diante de toda esta capacidade humana, Wittgenstein assumiria posições mais céticas, ao menos no tocante à Filosofia, com todas as suas questões “mal formuladas”, e à performance das avaliações “linguísticas” correspondentes: não multiplicam complexidades, que em verdade deveriam elucidar?
2.2 - Cada nó (e emaranhado!) no seu quadro linguístico: um mosaico caleidoscópico?
                                Um padrão de qualidade deste “discurso bem humorado”? Está na própria alternância das gagues “filosofadas” com suas contextualizações e deixas, no enfrentamento de asserções grandiloquentes ou ousadas atribuídas a outros filósofos – e que poderiam até ser tomadas por escandalosas, sendo porém rebatidas à altura pelos recursos destacados de “uma linguagem contemporânea” a contrastar posições. Tomemos a ruptura (para lá de modernista) que Witgenstein propõe na leitura de questões filosóficas por meio de exames mais linguísticos para “reenquadrar as questões e, na falta de resoluções às questões, fazê-las sumir”[11]. Se assumirmos como recurso descritivo (e até didático) usual (e não “apenas humorístico” ou caricatural) livremente passar de mestres para discípulos nas caracterizações de linhas de pensamento da História das Idéias, podemos manter o foco no jogo de questões e respostas destacadas, contrastadas com “ligeiros” efeitos humorísticos (e compreendendo assim a um verdadeiro paradigma, não?).
                2.3 – Formas da ironia
Gilbert Ryle, examinando “o modo como efetivamente falamos dos acontecimentos chamados de mentais” para frisar como ele se constitui, em última análise, de notas sobre comportamento: “Não se perde absolutamente nada se simplesmente jogarmos fora a palavra usada para designar o “lugar” que se considera a origem do comportamento.” Resposta ironica, instantânea e imediata, dos autores: “Considere jogado fora, Gilly.”
Dirigir-se ao próprio sujeito que é assunto em uma história das idéias, Gilly, afetando tamanha familiaridade, é um modo de recuperar o “já-dito” e atualizar um signo em palavra[12] da enunciação em curso, marcando distanciamentos e aproximações  (como “para estabelecer confluências discursivas e, ao mesmo tempo, diferenciá-las”[13]), e “todo um leque de relações com o outro – de acordo ou de conflito – desenham no discurso o traçado relativo a uma interdiscursividade mostrada, a uma fronteira interior/exterior (1991. P. 147).” Authier-Revuz – citada por Cristina Lopes Perna – nesta caracterização das quatro formas que podem ser mapeadas nos processos irônicos, de não-coincidência, refere-se à “não-coincidência do discurso consigo mesmo”, “aos comentários que assinalam no discurso a presença estrangeira de palavras marcadas como pertencentes a um outro discurso” (“para retomar as palavras de...”, “como dizem os...”, “... (não) no sentido que lhe dá o discurso feminista”, etc.).
Se a alusão a um discurso, como e determinados usos de determinadas palavras – ou mesmo ao sentido de uma palavra – atualiza “do exterior à enunciação em curso” a “atuação das diferentes formas de recuperação do já-dito”, esta atuação também pode conjugar diversas formas de não-coincidência, como acontece (em metáforas e) neste comentário à narrativa, que também manifesta nitidamente uma não-coincidência interlocutiva, “o fato de uma palavra, uma maneira de dizer, não ser partilhada pelos dois protagonistas de uma enunciação, fato esse que constitui uma ameaça à interação” – pois os exemplos adiantáveis são “X, se você desejar”, “digamos X”, “X, se você percebe o que eu quero dizer”, “X, mesmo sbendo que você não gosta da palavra”, “X, compreende...”.  
As duas outras não-coincidências, aquela entre as palavras e as coisas e aquela entre palavras com elas mesmas, também se fazem presentes, primeiramente pelo comentário não deixar de representar “as buscas, hesitações, fracassos, sucessos, [...] na produção da “palavra justa” plenamente adequada à coisa”, uma ironia do tipo “por assim dizer”, que também pode ser “à pertinência existente entre o que está sendo narrado e a forma de narrar”. O tratamento apelidado Gilly também deflagra uma polissemia, tornando ainda mais plural o discurso de seus autores, ao fazê-lo coincidir tanto com o modo com que, por exemplo, poderíamos prometer algo a uma criança, quanto com o modo pelo qual resolve-se efetivamente abordar um professor – e autor – de Filosofia – nem que depois de falecido. Trocadilhos e homonímias (“você está me confundindo!”) também seriam exemplos desse modo de manifestar ironia (manifesto em expressões como “literalmente X”, “X no sentido próprio”, “X, no sentido figurado”, “X, nos dois sentidos”, “X, em todos os sentidos da palavra”, “X, é o caso de dizer”, “X, se ouso dizer”, etc.), ironia que autores como Grice, Sperber e Wilson considerariam operar sempre por uma “lógica dos contrários”, como em tensão entre “o literal e o figurado” e em soluções pragmáticas não necessariamente suficientes para uma plena caracterização do fenômeno – na abordagem de Authier-Revuz é que se aponta ao modelo de heterogeneidade do discurso, abordando a relação entre enunciador e objeto de ironia, e entre o enunciador e o enunciatário. 
A ironia transpira tranquilamente, pois ainda que ela costume supor uma relação dinâmica de considerações entre interlocutores diversos, e até mesmo um conflito tensionado, com algum tipo de risco, ela aqui sobressai-se por um discurso explicitamente conciliatório e compreensível – em um contexto, humorístico e aqui protegido, de farsas – discursos cômicos e incluso ficcionais.
Estou confundindo alguém? Peço mil perdões, talvez também estejam me confundindo... mas simulação do registro de um diálogo supostamente abrindo leques de relações com “o outro” chega a ser da vida cotidiana de muitos. Sem qualquer comentário, mas com um apelido, os autores lograram assinalar, no discurso, pela presença “estrangeira” de palavras marcadas, repetidas ou derivadas, variações, que são “petencentes a um outro discurso e que, através de todo um leque de relações com o outro – de acordo ou conflito – desenham no discurso o traçado relativo a uma interdiscursividade mostrada, a uma fronteira interior/exterior (1991. P. 147), a evidenciarem inclusive a “não-coincidência do discurso consigo mesmo”[14]. Evidenciando o distanciamento frente à própria orientação de considerar “jogado fora” uma parte do vocabulário (a que suponha espaços “no lugar de” atitudes), a o discurso (“Consider it disposed of, Gilly.”) funciona mostrando toda uma interdiscursividade, “interdiscursividade mostrada”[15] – como por uma piscadela ao leitor que reconhecerá... um debate tocante à observação da linguagem (e que esta observação e este debate impõem uma disciplina, ou ao menos uma prática, nesta instância aceita e compartilhada), evocada e escrutinada  com respeito ao entendimento das suas dinâmicas.
O amigável registro do humor se finge, artisticamente, ao ecoar (rimando com) outros diálogos e chistes no livro, de ferina ironia – num primeiro momento de supostas e projetadas representações. A manobra, combinando – graciosa e alusivamente – certos sinais, cria ao seu próprio (polissemicamente diferenciado) registro filosófico e argumentativo, enquanto mantém um aspecto da referida ironia: o envolvimento na relação com os leitores já pressupostos, e até com seus temas – mais ou menos irônicos, linguísticos e filosóficos. Tais leitores estarão mais familiarizados (ao menos, do que uma surpreendentemente suposta personificação de Gilbert Ryle) com o jogo intertextual dos segmentos do capítulo (e portanto livro) em nossa questão, já se comprazendo nas recordações e reminiscências de “narrativas exemplares” (não digo as de Cervantes, mas aqui de Ludwig Wittgenstein com seus seguidores, por nosso cenário – ocidental ou universal – assaz cartesiano) cada vez mais repletas de  exemplificações anedóticas (cujas protagonistas, mascaradas e desmascaradas por alegorias e explanações, tendem a ser as próprias idéias em jogo interdiscursivo de trabalhos). Que tão breve passagem textual esteja a pautar e orquestrar tamanho campo de – considerações e leituras – comunicações, pode ser atribuído ao virtuosismo do próprio texto de humor. Que esta mesmíssima contemplação esteja tão acessível, por meio de tradução dos signos de um discurso tão polimórfico, e de já múltiplas autorias, mais parece aproximar-nos de uma cultura com a qual novos leitores (tradutores inclusos) já se identificam sem maiores dificuldades argumentativas, por meio de (interpretações, hipóteses de trabalho e unidades tradutórias correspondentes:) certas palavras e várias expressões correspondentes.
2.4 – o feitiço no tempo
Segue imediatamente uma série de narrativas de questões absurdamente levadas ao pé da letra, ou quadros interpretativos conflitantes, para elucidar como a utilização da linguagem pode mesmo ser “confusa e confundidora” (mas não apenas em Filosofia”!). Ser feliz na expressão de considerações, ao formular uma questão, podia ser vital frente às grandes instituições oraculares da antiguidade, e segue fazendo grande diferença, em toda sorte de contratações... bem como desmanchar “pseudo-charadas” – a grande atividade filosófica proposta por Wittgenstein, repetida com todas as letras (pseudo puzzles), no comentário ao quarto chiste adiante (o segundo é relato do sussurro da companheira de uma agonizante Gertrute Stein (e sua resposta): “Qual a resposta, Gertrude?” Stein replicou: “Qual a pergunta?”). Ser enfeitiçado (bewitched) pela linguagem seria estar fascinado por ela – mas ludibriado (hoodwinked), “iludido”. Exemplo de um tal despiste – o de versar sobre sujeitos inexistentes – é atribuído ao Heidegger de “Ser e Tempo”: “discute “nada” como se designasse alguma coisa estranha”.
Tal resumo poderia ser irritante para quem estivesse envolvido com as clássicas resistências de Heidegger, mas é primeiramente com “Wittgenstein” que se poderia suspeitar de qualquer ardil por aqui. Ou então seguir confiante à apresentação das idéias, através das suas exemplificações (no mínimo análogas, digamos), aproximações e similitudes, em um pequeno par de narrativas risíveis, mas inequívocas[16]. A primeira assemelha-se notavelmente à do tema abordado pelo término do capítulo, o da lógica difusa (ou fuzzy – “juro por Deus”/honest to God), que evocará o de “filósofos enternecidos” e “filósofos endurecidos” – em termos, de William James.
_ Freddy, espero que você viva até os cem anos, mais uns três meses.
_ Obrigado, Alex. Mas por que os três meses?
_ Não quero que você morra de repente.[17]  
                2. 5 – jogo da seleção de filósofos da linguagem comum no cerne de uma perspectiva da ação verbal
Depois da história (apenas aludida na nota 13) de um psiquiatra a estranhar o cheiro horrível do seu cliente (que tão compreensivelmente não coonsegue arrumar namorada), também sobre quem parece estar “enfeitiçado pela linguagem”, será narrado o causo de dois comensais em um navio,  candidatos a interlocutores, que estariam presos a dois contextos linguísticos nitidamente distintos (“Não ajuda nada o fato de falarem duas línguas diferentes.”) e seguirão casos de agendas diversas, inclusive de vida e morte, provendo “analogias patéticas” (literalmente ridículas, imbecis: goofy analogies) “de como diferentes quadros linguísticos confundem a comunicação” (confundem, embaralham, perturbam...). Antes, porém, temos uma observação-chave sobre formas e finalidades diversas da linguagem, em seus usos, em diversos contextos, atribuída a outro filósofo de Oxford, John Austin, tratando de crença – e linguagem – religiosa como radicalmente distinta das questões “de fato”, descritivas: “dizer que “eu prometo” é, em termos linguísticos, uma coisa inteiramente diferente de dizer “eu pinto”. Dizer “eu pinto” não é a mesma coisa que pintar, mas dizer “eu prometo” é a mesma coisa que prometer.” Esta grande diferenciação ilustra como a “linguagem tem mais de uma finalidade e é usada de formas diferentes em diferentes contextos”, segundo “os filósofos da linguagem comum”, e seu parágrafo encerra tipicamente afirmando: “O uso de linguagem adequada a um quadro linguístico em outro quadro linguístico diferente é o que provoca confusões filosóficas e pseudocharadas, também conhecidas como história da filosofia.”      
O que bem pode valer por um clímax argumentativo, e seu desfecho, detalham a noção de se livrar das confusões filosóficas, mesmo quando (ou se) for o caso de afirmar a crença em “Deus”: alguns filósofos da linguagem comum enquadraram tal crença como avaliação de mérito de certos valores (análoga a de críticos... de cinema), enquanto outros “diziam que a linguagem religiosa expressa emoções: “Eu acredito em Deus” quer dizer “Quando penso no universo, fico todo arrepiado!””[18] (...) “Problema resolvido! E 2.500 anos de filosofia da religião vão embora pelo ralo.”  (2,500 years of the philosophy of religion down the tubes).

[1] A wikipedia informa ter sido traduzida para 25 línguas, e seus autores, Thomas Cathcart & Daniel Klein, são licenciados em Filosofia pela Universidade de Harvard. Segundo sua “página oficial”, o primeiro envolveu-se com (escolas de) Teologia, vindo a publicar, em Theology Today, seu ensaio The Ontological Argument Works! (sort of) (digamos: “o argumento ontológico (meio que) funciona!”), foi diretor de operações de um hospital (também trabalhando com outras organizações médicas) e oficial de justiça trabalhando com gangues de rua em Chicago. Já Daniel trabalhou escrevendo para humoristas famosos, televisão, jogo de tabuleiro (Group Therapy), um dos mais vendidos manuais de sexo, e séries policiais e de mistério (como Elvis Presley). A parceria abarca outras “obras”: Heidegger and a Hippo Walk through Those Pearly Gates (usando Filosofia (e piadas!) ao explorar a vida, a morte, o pós-vida, “e tudo o que houver entre eles”, digamos), Aristotle and an Aardvark Go to Washington (“Aristóteles e um porco-da-terra vão a Washington”) e Macho Meditations.
 [2] O original existe em capa dura e brochura, com algumas passagens destacadas em vermelho, ao passo que a tradução brasileira está em elegante versão pocket, preta e branca – exceto pela capa com colorações marrom-alaranjadas, como as próprias edições originais.
[3] A passagem refere a Authier-Revuz (ver nota 12) e Beth Brait, autora de Ironia em perspectiva polifônica (Campinas: Unicamp, 1996), que nota na interação enunciador-enunciatário do processo discursivo irônico a particularidade específica do enunciatário ser “necessariamente, previsto, instaurado na e pela enunciação, tal qual o enunciador e, como tal, funcionar como “enunciador intérprete” (1996, p. 109).”
[4] Quanto ao estudo da tradução do humor na Filosofia, calma e paciência: talvez uma constatação, mesmo enfocando questões textuais de humor em tradução, se limite a observar uma clássica operação argumentativa, a de redução ao absurdo, se tornando sistêmica, corrente e difusa.
[5] Relutamos em sinalizar aqui à força do gerúndio no original “Philogagging – An Introduction” como alguém poderia relutar em dizer de um filme “o livro é melhor”, por tratarem-se de registros textuais tão nitidamente distintos. Pretende-se promover avaliações e exercício analítico, sim, mas desde um levantamento de características – em que maiores ou mais estreitos juízos de valor, sobre particularidades das equivalências tradutórias, não entrem em “primeiro plano” nem recebam um papel necessariamente tão destacado. Isto por traduções serem composições discursivas povoadas de soluções textuais conjuntamente apresentadas e – ao menos neste caso – bem apreensíveis. Também evitaríamos, tanto quanto o possível, remeter às possibilidades tradutórias alternativas, quando pouco significativas, ou chalaças mais impertinentes – e nem teremos aqui muita ocasião para discutir ortografia. Ademais, salvo um que outro dos antigos “Planeta Dos Macacos” (entre bem poucas honrosas excessões a confirmarem regra e definição:), não seria bem difícil a qualquer adaptação cinematográfica que ela levasse a melhor, em contrastações de seus efeitos e impactos, frente às primeiras leituras de obras (no próprio território das ficções!) meramente razoáveis?
Apenas continuarei, portanto, convenientemente mencionando as expressões originais de cabíveis unidades tradutórias, como no caso deste neologismo - Fiolgague/Philogagging. Quanto ao aspecto eventualmente sinuoso das analogias retóricas empregadas nesta nota, remeto à nota seguinte.   
[6] Op.Cit. página 10.
[7] Encontrar um relógio no deserto pode nos fazer pensar na existência de um relojoeiro, ou inventor, como uma cadeira pode nos sinalizar a existência de um carpinteiro. Nem por isso falar do “carpinteiro do universo” servirá de prova para tudo o que se pretenda com a expressão.
Existe ainda uma Nota do Tradutor elucidando a relevância da acepção de “desígnio”, para a palavra design – que também é design no original.
O estrangeirismo design equivale literalmente a Projeto, mas uma tal opção, não comentada pelo tradutor, evitaria a rara e instrutiva nota de rodapé a sinalizar-nos, para além de uma voz tradutória, certa interpenetração contemporânea das línguas: a palavra design, incorporada da Língua Inglesa, é uma dessas suficientemente frequentes em nossa época, por diversos ambientes editoriais, e mesmo em Educação.
Ambas as possibilidades tradutórias (design e “projeto”) expressariam intencionalidade, agindo no processo constitutivo dos seres. A teoria das quatro causas, de Aristóteles (“o” filósofo), chama de “causa final” a esta agência equivalente a uma explicação teleológica (que oferece a razão para a qual algo foi feito ou existe) do processo constituinte das formas sensíveis (“causas formais”) pelos fatores correspondentes (“causa eficiente”, ou “motora”: princípio do movimento, aquilo que dá origem aos seres, o artífice no caso de artefatos, etc.) agindo na matéria (sim, “causa material”).
A especulação tocante à gênese de tantos organismos e sistemas oculares tende a gerar maiores crenças e justificações. Digamos que ao humanismo interesse o que for de matéria humana, ou mesmo aquela que “A Tempestade” de Shakespeare igualaria à “dos sonhos”. Sendo tão humano esquecer, pode surgir a pergunta: haverá outras matérias? Decerto que, entre humanistas e inventores de modernidade há outros idealistas e sonhadores, sejam eles “sonhados” ou filósofos mesmo, como um bispo anglicano especialmente representativo, chamado George Berkley (1685-1753).
Aliás, consta em contundente e curiosa resenha crítica, que a tradução portuguesa de nosso livrinho, pela editora Dom Quixote, (em 2008,) o teria chamado de Bishop George Berkeley, “como se Bishop fosse um nome próprio”. Também são acusadas a sua “falta de rigor de múltiplas asserções e algumas ingenuidades da tradução” (António Rego Chaves em, “De «Platão» a Cioran”, disponível em http://www.scribd.com/doc/25961130/Filosofia-Thomas-Cathcart-e-Daniel-Klein). Uma ação atribuída ao anglicano se encontra na cronologia de “Grandes Momentos na História da Filosofia” – também repleta das “previsíveis pretensões humorísticas” imputadas por Rego Chaves ao par de anexos traduzidos em seu país. Data 1731 como ano em que “O bispo Berkeley passa trinta dias num tanque de privação sensorial e sai sem alterações mentais” (spends thirty days in a sensory-deprivation tank and emerges with mind unchanged).
[8] No original: Have you ever spent an entire evening with Pythagoras? Traduz-se fácil e corretamente “Boa Noite” para “Good Evening”, e vice-versa, mas – como uma consulta ao dicionário facilmente indica – evening conjuga efetivamente a uma série de sentidos alusivos à tardinha, à noitinha, e aos eventos culturais que se dão na primeira parte da noite, ou antes das pessoas se recolherem (quando “good night” se torna o modo usual para desejar-se “boa noite”).
A presente tradução é portanto mais picante, por exemplo, do que seria uma politicamente correta “Já passou uma tarde inteira com Pitágoras?”, e segue imprimindo jocosidade na relação das pessoas com seus folclores e imaginários, ao transformar conotações expressivas que também são potências interpretativas  sintomáticas de nossos próprios “interesses culturais” – seja por mexericos relativos a se passar “uma noite inteira” com outrém, seja pelas relações entre culturas antigas e saberes filosóficos. 
[9] “It depends on what your definition of `is´ is”: a mudança de sonoridade não parece comprometer o desconcerto humorístico, mas a tradução corrente talvez opere uma compensação ao personalizar um ato definitório do pensamento, descartando, preterindo a formulação “Depende de qual é a sua definição de “é” ”: seria a nossa definição de “é” realizada mesmo pelo indivíduo que a adota e pronuncia ali, como suporia ao menos uma interpretação da fala traduzida para o nosso bom Português brasileiro? O jogo de representações do julgamento político, no original em inglês, não só não o supunha, como ainda era alusivo a uma suposta partidarização da inquirição – portanto a uma forma (ou outra) de politizá-la. A qualidade vaga e/ou sutil da manobra retórica original faz parte da sua (des)graça, ao passo que a transposição brasileira da resposta, trazendo à conversa um nível interpessoal, e supostamente construtivo, rearticula um caráter sofístico que não deixa de ser nosso objeto inicial de zombaria – imediata e graciosamente remetendo a práticas da própria Filosofia da Linguagem.
Dentre os fatores que favorecem a tradução do humor Jogos humorísticos, sobressai-se aqui o conhecimento contextual de um dado cultural partilhado por nossos povos: o do tipo de inquérito ao qual o presidente “Bill” Clinton estava sendo submetido – por abuso e transgressão sexuais de adultério e assédio. Ao fazer parte do folclore da política e das comunicações, a própria temática, nos jogos de palavras da linguagem social, volta a lidar com potências identitárias – mas, agora, de filósofos.
[10] Talvez alguém “como eles” (ou melhor ainda, “muito zen) possa mesmo fazer tradução intersemiótica em pantomima, grunhidos e etc., mas nem por isso desviaremos o assunto das “equivalências tradutórias”, ou correspondências, como preferem alguns, pondo a perder às apreciações dos acertos tradutório no fraseado de nossa língua, e de coincidências de valores culturais, como na metáfora de se chegar a algum lugar com “toda essa história” – ou “esse negócio todo”, como uma ferramenta eletrônica também poderia traduzir.
Assim como certos leitores atentos, e ainda mais habituados com análises de textos narrativos, podem bem reparar nas expressões tão estranhas que façam desconfiar da tradução, não nos é difícil, cotejando uma tradução competente, como esta, notar como uma expressão cristalizada foi substituída por outra, equivalente, em benefício da fluência, e do humor – do “texto fisiológico”, como diriam punhados de alunos. “Jogo de palavras” é “playing games with words”, no original (“brincadeiras com palavras”, se fossemos traduzir mais de perto, mais palavra-por-palavra), e “Você não me engana” é “I´m finnaly beginning to see through you” (“finalmente minha visão te atravessa”, poder-se-ia traduzir).
[11]reframe questions, and do the next best thing to resolving the puzzles: make them go away” (reenquadrar as questões, e fazer a segunda melhor coisa para a resolução de quebra-cabeças (e intrigas, eu diria): fazê-las ir embora). A tradução corrente eventualmente praticará o estilo do próprio pensamento que se coloca, evitando complicar a linguagem, simplificando-a. O cotejo com o original também é parte que se demonstra ao menos bastante viável, se não criativa, de tradutórias apreciações, “linguísticas” e contemplativas, que também vamos configurar por meio de unidades tradutórias – destacadas, sim, por seus efeitos de/em composição textual (talvez estranhas ou chamativas, mas em textos sempre intuíveis) enquanto emaranhado(s) ou “nós”.  
[12] Cristina Lopes Perna:
“Conforme colocado por Bakhtin, a atuação das diferentes formas de recuperação do já-dito, do exterior à enunciação em curso, funciona da mesma maneira que a atualização do signo em palavra. Em outras palavras, o signo é um elemento pertencente a um sistema, que tem um significado que vai ser identificado pelo conhecedor desse sistema. A palavra, por sua vez, é uma unidade de discurso que participa de uma dimensão diferente, na medida em que, contextualizada, atualiza de maneira particular o signo, exigindo do receptor a competência interpretativa, a compreensão, e não simplesmente a identificação.”
[13] A expressão, colhida do parágrafo anterior à Conclusão do artigo de Cristina Lopes Perna situa-se num contexto de criação de sentidos, entre rejeitados ou integrados, aceitos. “O processo irônico nesse caso parece sintetizar essa não-coinciência na medida em que, mesmo não oferecendo comentários que designem sua rejeição ou aceitação, a dupla enunciação da ironia espelha esse processo e exige sua percepção por parte do enunciatário. Num texto mais longo, como a página de um jornal ou mesmo uma narrativa literária, essas estratégias podem aparecer para estabelecer confluência discursivas e, ao mesmo tempo, diferenciá-las.”
[14] Authier-Revuz, analizado por Cristina Lopes Perna, é a autora que caracteriza, exemplificando, quatro formas de não coincidência do discurso. A primeira forma, um tipo de perspectiva já levantado por Bakhtin, é a da não-coincidência interlocutiva que se dá entre enunciador e destinatário. “A autora localiza este fenômeno nas diferentes formas de comentários que representam o fato de uma palavra, uma maneira de dizer, não ser partilhada pelos dois protagonistas de uma enunciação, fato esse que constitui uma ameaça à interação.” Também “conduziu um levantamento detalhado onde cita um grande número de exemplos do tipo “X, compreende...”, “digamos X”; “X, se você desejar”, “X, se você percebe o que eu quero dizer”, X, mesmo sabendo que você não gosta da palavra”. Parece-nos plausível transportar essa estratégia para uma dimensão mais ampla que, sem excluir essas formas linguísticas precisas, apresenta-se como um processo global e fundamental na constituição da ironia.” 
[15] Segunda forma de não coincidência do discurso, das quatro possíveis de serem mapeadas no processo irônico, conforme Authier-Revuz supracitado.
[16] a ponto de uma rara subversão tradutória (facilmente apontável como “erro” de tradução...) fazer uma diferença apenas simbólica: quando se comentaria a confusão entre a singular denotação “de “vida artística” (que no caso deste exemplo implica limpar a sujeira dos elefantes) com a conotação emocional de “vida artística” (em que estar sob a luz dos refletores é tudo o que importa”) lê-se conotação. Como é que aquilo que seria diametralmente oposto, e errado, pode se tornar uma diferença tão relativamente simbólica? Tanto pela estrutura argumentativa em que se insere, decerto, quanto pela forma como o “lapso” (o termo trocado, de “conotação” no lugar de “denotation”) está cercado de soluções tradutórias satisfatórias – como aquela para pseudo puzzles (pseudopcharadas: “também conhecidas como história da filosofia”), entre algumas outras já apontadas.
[17] “I wouldn´t want you to die suddenly.” Já tão mais familiarizados com o texto tradutório, me animo a manifestar uma diferença de gosto, estilística, ainda que pouco relevante – se não como novo exemplo de (estreito) juízo de (maior) valor que por si só (ver nota 5) não valeria a pena debater – em mais uma preferência pela solução pedestre: “Não gostaria que você morresse de repente” (de resto, ela nem é tão curta, nem apresenta uma forma que soe tão folclórica... de países que não achem tão horroroso falar de morrer, digo, e em que até se apreciaria uma abordagem mais direta e “germânica”).
[18] Admirável série de eficazes soluções tradutórias para expressões que já soam engraçadas, como goosebumps, muddles, Poof! Pussle rsolved!, down the tubes...