O humor de tiozões traduzido... “em um livro com “Platão” no título”
Por
Ethon Fonseca
1.1 – Assunto, propósito e... introdução!
Faremos neste artigo uma interpretação tradutória do humor manifesta
em capítulo da versão brasileira, de José Rubens Siqueira, para Plato and a platypus walk into a bar...
understanding philosophy through jokes. Trata-se de uma obra (de 2006)
bastante bem recomendada por pessoas seriamente dedicadas a outras áreas de
letras/letramento e educação. Também é pautada como um New
York Times bestseller –
inclusive por listas de mais vendidos em França e em Israel[1].
“Platão
e um ornitorrinco entram num bar... A filosofia explicada com senso de humor”[2],
publicado pelo selo “ponto de leitura”, da editora Objetiva, em 2011, oferece narrativas em
tradução dando conta de qualidades argumentativas relevantes, para os próprios textos
deste livro de História de idéias filosóficas – cujos estilos (de humor e de
escrita) oferecem, por sua vez, ao menos um roteiro passível de diversas, e inclusive
bem tradutórias, performances.
O
recorte – daquele capítulo que versa sobre “Filosofia da Linguagem” (o VIIo)
– é roteiro para a apreciação de construção discursiva, de humor e ironia, à
luz de três artigos: Sascha Hoffman e Cristina Lopes Perna são respectivamente autoras
de “Me translate Funny One Day” (2012) e “Ironia e interdiscurso” (2004). Eles
sugerem hipóteses interessantes para apurar um registro discursivo (Adail
Sobral?) que pode ser incomum, mas muito característico – nada vago –
apresentando um roteiro argumentativo irônico, enfim, em uma certa padronagem
linguística, que são traços relevantes para diversos projetos e enfoques – tradutórios
– mobilizando explanações, didáticas e narrativas.
O
pequeno artigo de Hoffman dá notícia de um debate garantindo serem das mais
usuais complicações tradutórias as referências culturais e os jogos de
palavras. Refere-se à reunião anual da American Literary Translators
Association (Associação Americana de Tradutores Literários) dedicada ao tópico
“The Translation of Humor, or, the Humor of Translation” (“A Tradução do Humor,
ou, o Humor da Tradução”). Nela, David Bellos, um professor de Literatura Francesa
e comparada em Princeton, preparando sua fala principal na coonferência, chegou
a notar uma desconcertante falta de chistes iniciados com... “Um par de
tradutores entram num bar.” A expressão do humor entre as línguas – tão
factível, a julgar pela apreciação francesa dos filmes de Woody Allen –
levaria, segundo Bellos, um pouco de criatividade, e um pouco de sorte. Seu
livro “Is That a Fish in Your Ear?: Translation and the Meaning of Everything”
propõe o abandono de um ideal de perfeita fidelidade tradutória para busca de
uma anedota que surta alguns dos mesmos
efeitos (rings some of the same bells) que o original. Desta forma, muitas
frases desencadeadoras de risos (punch lines) não seriam menos passíveis de
tradução (“das mórbidas às absurdas”)... do que a meteorologia. Como ainda se
quer demonstrar, se não ilustrar.
Quanto
à questão da ironia, a meu ver efeito lançado em ponto “alto” do artigo, evocaremos
Cristina Lopes Perna (2004), que problematiza algumas abordagens expressivas,
ressaltando suas mais importantes caracterizações:
“A
ironia constitui um modo de conciliação de subjetividades, se levarmos em
consideração a interação enunciador-enunciatário, uma vez que o enunciador da
ironia supõe seu auditório capaz de reconstruir convenientemente e
consecutivamente a citação e a contestação. O discurso irônico é um dos que
mais envolve, mais convoca e exige que seu enunciatário elabore uma construção
interpretativa complexa, sobre a base de uma confiança postulada por E1
[enunciador irônico]. Ocorre então uma certa conivência, uma solidariedade
implícita entre o enunciador e enunciatário.”[3]
Um terceiro artigo sobre
tradução e humor, “Loss and Gain in Humor Translation; A case study of The
Ethics of the Aristocrats”, de Farzad Akmali, versa também de trocadilhos, mas contrasta
pelos jogos com frases originalmente feitas sobre traços linguísticos, e em
alusões muito específicas, da cultura Persa, revelando uma operação de tradução
literária para a qual se elabora um tipologia de textos de um humor menos
“universal”.
O relativo êxito da performance
tradutória analizada aqui pode ser atribuído a diversos fatores, tanto à sorte
quanto a caracerísticas qualificadoras do próprio texto original enquanto um
produto de exportação, passando portanto pela seleção de narrativas, veiculadas
na atualização dos respectivos balanços de idéias – ao menos fruível e
compreensível para tantas e diversas culturas. Além da robustez de um
imaginário em que envereda com tintas emocionais bem fortes, o próprio linguajar
com o qual se plasmam tais episódios argumentativos – mas nem por isso necessariamente
menos humoristicamente calibrados – encontra valores altamente análogos em
nossas línguas, como por muitos dos próprios termos que elucida, e mesmo nos tratamentos
mais coloquiais, como alguns lidando com patéticas patetices da vida[4].
1.2 – Zinger?
Um dado momento de “Filogague: Uma
Introdução”[5]
sugere como humoristas estão atentos a efeitos que podem soar vertiginosos,
operando em sintonia com o espanto criativo de tantos filósofos:
“A construção e recompensa das
piadas e a construção e a recompensa dos conceitos filosóficos são feitas da
mesma matéria. Ambas nos estimulam a mente de formas similares. Isso porque a
filosofia e as piadas provêm do mesmo impulso: confundir nossa sensação de como
as coisas são, virar de pernas para o ar nosso mundo, e desencavar verdades
ocultas sobre a vida, muitas vezes incômodas. O que o filósofo chama de insight, o humorista chama de zinger.”[6]
Duas páginas e piadas depois, uma proposição
artística dos autores implicará no reconhecimento de campos próprios – ainda
que em constante comunicação – de humores e de contemplação intelectual: “Vamos
demonstrar como os conceitos filosóficos podem ser esclarecidos por piadas e como muitas piadas são recheadas de
fascinante conteúdo filosófico.” Como são expressões linguísticas as que
comportam e constróem tais conceitos e piadas, suas transmutações tradutórias
passam a comunicar e apresentar tais “impulsos” e qualidades. Atentando para a
tradução da argumentação discursiva do livro encontraremos as unidades
tradutórias que expressam humores, e suas qualidades reflexivas (além de
sinalizarem estados mentais não menos específicos, ainda que eventualmente
implícitos).
1.3 – Quem tem língua (tem argumento
analógico, e) vai à Grécia
Apresentava-se a “manobra
filosófica” do “Argumento Analógico”, e a aplicação, correta ou errônea, de seu princípio – “se dois
resultados são similares, devem ter uma causa similar”. O exemplo correto de
Argumento Analógico era a piada do homem de 90 anos que anuncia ao médico a
gravidez de sua esposa de 18 anos: o médico resolve narrar-lhe a história de um
homem que foi caçar, mas levou por engano um guarda-chuva, ao invés da
espingarda e, ao ser repentinamente atacado por um urso, atirou com o
guarda-chuva, matando o animal.
“O homem disse:
_ Impossível Algum outro caçador deve ter matado o urso.
O médico falou:
[“My point exactly!”:]
_Exatamente!”
O outro exemplo, mas errôneo, de
Argumento Analógico, refere ao contexto de discussão do “Design Inteligente”: “se
existe um globo ocular, deve existir um Designer de Globo Ocular no Céu” [7].
Existe tradução definida, portanto
tradutor, e portanto projetos tradutórios... mas o que nos interessará aqui são
mediações conceituais dizendo respeito à presença de espírito de cada qual –
autor, humorista, tradutor ou filósofo.
2.0
– Atacando, então, Linguagem – e
capítulo VII:
Entre umas e outras das tantas
anedotas deste capítulo encontraremos advertências céticas e witgensteineanas
contra as confusões de quadros linguísticos, em cujas interpretações habituais
poderíamos não raro nos encontrar presos, William James falando em “filósofos
enternecidos” e “filósofos endurecidos”, e um episódio verídico, da vida real e midiática – por fim Dimitri pensa
naquilo que Tasso chama de “Filosofia” como podendo, relevantemente, ser
chamado de “piada”.
Dimitri e Tasso são personagens de
diálogos ligeiros que seguem à epígrafe e encerram cada um dos capítulos do
livro. Dimitri é quem começa perguntando. Em “Hora da Summa: Uma Conclusão” é que Tasso pegará o microfone do Clube de
Comédia Acrópole para “uma conclusiva e abrangente revisão de tudo o que
aprendemos hoje”. Apenas no final do sexto capítulo é que Tasso parece iniciar
o diálgo, mas imediatamente ficamos sabendo que está apenas contestando os
risos de Dimitri, por se estar falando da angst
da morte, esta genuína angústia
existencial – e travo amargo da
própria palavra – em uma vida autêntica
sob a sombra da finitude... e de Heidegger, aqui tomado por... agourento. “Não
é para rir.”, emenda, Tasso, e Dimitri explicará haver algo pior do que a morte
– algo ainda mais específico do que humores irracíveis de existencialista, mas
também tocante ao já antigo time de filósofos: “Já passou uma noite inteira com
Pitágoras?”[8].
A epígrafe que segue, já em
nosso capítulo VII, reflete à complexidade do ex-presidente William Jefferson
Clinton ao encarar um interrogatório no qual respondera: “Depende de como você
define `é´”[9].
Afirma ser esta uma manobra de Filosofia da Linguagem, ainda que o então
presidente também pudesse estar “fazendo outras coisas”.
Dimitri: Você não me engana, Tasso. Toda essa
história de filosofia não passa de jogo de palavras!
Tasso: Exatamente! Agora estamos chegando a
algum lugar.
Dimitri: Então você admite! Filosofia é apenas
semântica!
Tasso: Apenas
semântica? De que outro jeito se poderia fazer filosofia: com grunhidos e
risadas?[10]
2.1 – “Filosofia da Linguagem Comum”
sim, jamais “Filosofia de Linguagem Ordinária”...
O humorista, como o tradutor, dificilmente
esquece do tema ser o outro, do seu trabalho ser o de mexer com o interlocutor
(que ele talvez até gostasse de conhecer!). Simplesmente enfileirar piadas de
português, por outro lado, ou de careca, de advogado, de padre – e assim por
diante – poderia colocar em risco o nosso próprio propósito (por tribal ou
nobre, que fosse). O bom humor não opera precisamente os contextos da sua
própria linguagem, bem como “a Filosofia”?
Uma tradução pode sim estar errada,
talvez até mesmo ser maldosa, como a impertinência aludida acima do parágrafo
anterior – para uma “Ordinary Language Philosophy” “Filosofia da Linguagem Comum” é mesmo “a
alternativa correta”. Esta primeira – e tão de longe a maior – das quatro
secções do capítulo (as outras três somam menos de sete páginas, enquanto
somente a primeira tomará nove, sem contar um interlúdio – visual, cartunesco –
que lhe pertence, ao menos “espiritualmente”!). O tradutor também opera atento,
dizíamos, aos contextos (e co-textos) que emprestam, em vários sentidos,
significado a cada expressão: para eleger soluções tradutórias, que dinamizem
um discurso, de modo no mínimo análogo (mas imprimindo ainda “tais e quais”
significações) também refletirá às próprias potências da linguagem, bem como os
próprios filósofos – ou humoristas – que por ventura estejam sendo traduzidos,
com suas variações estilísticas e reflexivas, mesmo de hipóteses especulativas,
ou então científicas. Tamanha inteligência humorística, em público, pode bem ser
mobilizada para a ironia, o que não deixa de oferecer risco à própria
distração, ou admiração – por exemplo, de “grunhidos e risadas”. Não gostamos
que riam de esforços mais sérios, como os que geralmente nos esperam, mesmo que
não saibam o que estão fazendo com o próprio futuro – como nós decerto sabemos,
enquanto professores ou pessoas politizadas (para não dizer “religiosamente
corretas”). Uma audiência pode ser comovente, estar segura com várias
considerações irônicas, e estar mobilizada. Ainda assim, ser irônico não
costuma ser um objetivo tão “sério” – quanto pode ser o de não demonizar tais e
quais ironias, ou o de merecer maiores atenções. A questão é que fica sendo
necessário contar com uma série de discernimentos, diferenciações, clivagens
conceituais e até “intuitivas” de “bom senso” (ao menos para além de eventuais
sensos comuns), até para discernir as hipóteses interpretativas mais relevantes,
no contexto comunicativo – hipóteses sendo inclusive parte do entendimento de
qual é a tal de graça.
Haja competência para operar com tamanha
complexidade! Diante de toda esta capacidade humana, Wittgenstein assumiria
posições mais céticas, ao menos no tocante à Filosofia, com todas as suas questões
“mal formuladas”, e à performance das avaliações “linguísticas” correspondentes:
não multiplicam complexidades, que em verdade deveriam elucidar?
2.2 - Cada nó (e emaranhado!) no seu
quadro linguístico: um mosaico caleidoscópico?
Um
padrão de qualidade deste “discurso bem humorado”? Está na própria alternância
das gagues “filosofadas” com suas contextualizações e deixas, no enfrentamento
de asserções grandiloquentes ou ousadas atribuídas a outros filósofos – e que
poderiam até ser tomadas por escandalosas, sendo porém rebatidas à altura pelos
recursos destacados de “uma linguagem contemporânea” a contrastar posições.
Tomemos a ruptura (para lá de modernista) que Witgenstein propõe na leitura de
questões filosóficas por meio de exames mais linguísticos para “reenquadrar as
questões e, na falta de resoluções às questões, fazê-las sumir”[11].
Se assumirmos como recurso descritivo (e até didático) usual (e não “apenas
humorístico” ou caricatural) livremente passar de mestres para discípulos nas
caracterizações de linhas de pensamento da História das Idéias, podemos manter
o foco no jogo de questões e respostas destacadas, contrastadas com “ligeiros” efeitos
humorísticos (e compreendendo assim a um verdadeiro paradigma, não?).
2.3
– Formas da ironia
Gilbert Ryle, examinando “o modo
como efetivamente falamos dos acontecimentos chamados de mentais” para frisar
como ele se constitui, em última análise, de notas sobre comportamento: “Não se
perde absolutamente nada se simplesmente jogarmos fora a palavra usada para
designar o “lugar” que se considera a origem do comportamento.” Resposta ironica,
instantânea e imediata, dos autores: “Considere jogado fora, Gilly.”
Dirigir-se ao próprio sujeito que é
assunto em uma história das idéias, Gilly,
afetando tamanha familiaridade, é um modo de recuperar o “já-dito” e atualizar um
signo em palavra[12]
da enunciação em curso, marcando distanciamentos e aproximações (como “para estabelecer confluências
discursivas e, ao mesmo tempo, diferenciá-las”[13]),
e “todo um leque de relações com o outro – de acordo ou de conflito – desenham
no discurso o traçado relativo a uma interdiscursividade mostrada, a uma
fronteira interior/exterior (1991. P. 147).” Authier-Revuz – citada por
Cristina Lopes Perna – nesta caracterização das quatro formas que podem ser
mapeadas nos processos irônicos, de não-coincidência, refere-se à
“não-coincidência do discurso consigo mesmo”, “aos comentários que assinalam no
discurso a presença estrangeira de palavras marcadas como pertencentes a um
outro discurso” (“para retomar as palavras de...”, “como dizem os...”, “...
(não) no sentido que lhe dá o discurso feminista”, etc.).
Se a alusão a um discurso, como e
determinados usos de determinadas palavras – ou mesmo ao sentido de uma palavra
– atualiza “do exterior à enunciação em curso” a “atuação das diferentes formas
de recuperação do já-dito”, esta atuação também pode conjugar diversas formas
de não-coincidência, como acontece (em metáforas
e) neste comentário à narrativa, que também manifesta nitidamente uma
não-coincidência interlocutiva, “o fato de uma palavra, uma maneira de dizer,
não ser partilhada pelos dois protagonistas de uma enunciação, fato esse que
constitui uma ameaça à interação” – pois os exemplos adiantáveis são “X, se
você desejar”, “digamos X”, “X, se você percebe o que eu quero dizer”, “X,
mesmo sbendo que você não gosta da palavra”, “X, compreende...”.
As duas outras não-coincidências,
aquela entre as palavras e as coisas e aquela entre palavras com elas mesmas,
também se fazem presentes, primeiramente pelo comentário não deixar de
representar “as buscas, hesitações, fracassos, sucessos, [...] na produção da
“palavra justa” plenamente adequada à coisa”, uma ironia do tipo “por assim
dizer”, que também pode ser “à pertinência existente entre o que está sendo
narrado e a forma de narrar”. O tratamento apelidado Gilly também deflagra uma polissemia, tornando ainda mais plural o
discurso de seus autores, ao fazê-lo coincidir tanto com o modo com que, por
exemplo, poderíamos prometer algo a uma criança, quanto com o modo pelo qual resolve-se
efetivamente abordar um professor – e autor – de Filosofia – nem que depois de
falecido. Trocadilhos e homonímias (“você está me confundindo!”) também seriam
exemplos desse modo de manifestar ironia (manifesto em expressões como
“literalmente X”, “X no sentido próprio”, “X, no sentido figurado”, “X, nos
dois sentidos”, “X, em todos os sentidos da palavra”, “X, é o caso de dizer”,
“X, se ouso dizer”, etc.), ironia que autores como Grice, Sperber e Wilson considerariam
operar sempre por uma “lógica dos contrários”, como em tensão entre “o literal
e o figurado” e em soluções pragmáticas não necessariamente suficientes para
uma plena caracterização do fenômeno – na abordagem de Authier-Revuz é que se aponta
ao modelo de heterogeneidade do discurso, abordando a relação entre enunciador
e objeto de ironia, e entre o enunciador e o enunciatário.
A ironia transpira tranquilamente,
pois ainda que ela costume supor uma relação dinâmica de considerações entre
interlocutores diversos, e até mesmo um conflito tensionado, com algum tipo de
risco, ela aqui sobressai-se por um discurso explicitamente conciliatório e compreensível
– em um contexto, humorístico e aqui protegido, de farsas – discursos cômicos e
incluso ficcionais.
Estou confundindo alguém? Peço mil
perdões, talvez também estejam me confundindo... mas simulação do registro de
um diálogo supostamente abrindo leques de relações com “o outro” chega a ser da
vida cotidiana de muitos. Sem qualquer comentário, mas com um apelido, os
autores lograram assinalar, no discurso, pela presença “estrangeira” de
palavras marcadas, repetidas ou derivadas, variações, que são “petencentes a um
outro discurso e que, através de todo um leque de relações com o outro – de
acordo ou conflito – desenham no discurso o traçado relativo a uma
interdiscursividade mostrada, a uma fronteira interior/exterior (1991. P. 147),
a evidenciarem inclusive a “não-coincidência do discurso consigo mesmo”[14].
Evidenciando o distanciamento frente à própria orientação de considerar “jogado
fora” uma parte do vocabulário (a que suponha espaços “no lugar de” atitudes),
a o discurso (“Consider it disposed of,
Gilly.”) funciona mostrando toda uma interdiscursividade, “interdiscursividade
mostrada”[15] –
como por uma piscadela ao leitor que reconhecerá... um debate tocante à
observação da linguagem (e que esta
observação e este debate impõem uma disciplina, ou ao menos uma prática, nesta
instância aceita e compartilhada), evocada e escrutinada com respeito ao entendimento das suas dinâmicas.
O amigável registro do humor se
finge, artisticamente, ao ecoar (rimando
com) outros diálogos e chistes no livro, de ferina ironia – num primeiro
momento de supostas e projetadas representações. A manobra, combinando – graciosa
e alusivamente – certos sinais, cria ao seu próprio (polissemicamente
diferenciado) registro filosófico e argumentativo, enquanto mantém um aspecto
da referida ironia: o envolvimento na relação com os leitores já pressupostos,
e até com seus temas – mais ou menos irônicos, linguísticos e filosóficos. Tais
leitores estarão mais familiarizados (ao menos, do que uma surpreendentemente
suposta personificação de Gilbert Ryle) com o jogo intertextual dos segmentos
do capítulo (e portanto livro) em nossa questão, já se comprazendo nas
recordações e reminiscências de “narrativas exemplares” (não digo as de
Cervantes, mas aqui de Ludwig Wittgenstein com seus seguidores, por nosso
cenário – ocidental ou universal – assaz cartesiano) cada vez mais repletas
de exemplificações anedóticas (cujas
protagonistas, mascaradas e desmascaradas por alegorias e explanações, tendem a
ser as próprias idéias em jogo interdiscursivo
de trabalhos). Que tão breve passagem textual esteja a pautar e orquestrar
tamanho campo de – considerações e leituras – comunicações, pode ser atribuído
ao virtuosismo do próprio texto de humor. Que esta mesmíssima contemplação
esteja tão acessível, por meio de tradução dos signos de um discurso tão
polimórfico, e de já múltiplas autorias, mais parece aproximar-nos de uma
cultura com a qual novos leitores (tradutores inclusos) já se identificam sem
maiores dificuldades argumentativas, por meio de (interpretações, hipóteses de
trabalho e unidades tradutórias correspondentes:) certas palavras e várias expressões correspondentes.
2.4 – o feitiço no tempo
Segue imediatamente uma série de
narrativas de questões absurdamente levadas ao pé da letra, ou quadros interpretativos conflitantes, para elucidar como a utilização da
linguagem pode mesmo ser “confusa e confundidora” (mas não apenas em Filosofia”!).
Ser feliz na expressão de considerações, ao formular uma questão, podia ser
vital frente às grandes instituições oraculares da antiguidade, e segue fazendo
grande diferença, em toda sorte de contratações... bem como desmanchar “pseudo-charadas”
– a grande atividade filosófica proposta por Wittgenstein, repetida com todas
as letras (pseudo puzzles), no comentário
ao quarto chiste adiante (o segundo é relato do sussurro da companheira de uma
agonizante Gertrute Stein (e sua resposta): “Qual a resposta, Gertrude?” Stein
replicou: “Qual a pergunta?”). Ser enfeitiçado (bewitched) pela linguagem seria estar fascinado por ela – mas
ludibriado (hoodwinked), “iludido”. Exemplo
de um tal despiste – o de versar sobre sujeitos inexistentes – é atribuído ao Heidegger
de “Ser e Tempo”: “discute “nada”
como se designasse alguma coisa estranha”.
Tal resumo poderia ser irritante
para quem estivesse envolvido com as clássicas resistências de Heidegger, mas é
primeiramente com “Wittgenstein” que se poderia suspeitar de qualquer ardil por
aqui. Ou então seguir confiante à apresentação das idéias, através das suas
exemplificações (no mínimo análogas, digamos), aproximações e similitudes, em um
pequeno par de narrativas risíveis, mas inequívocas[16].
A primeira assemelha-se notavelmente à do tema abordado pelo término do capítulo,
o da lógica difusa (ou fuzzy – “juro
por Deus”/honest to God), que evocará
o de “filósofos enternecidos” e “filósofos endurecidos” – em termos, de William
James.
_ Freddy, espero que você viva até
os cem anos, mais uns três meses.
_ Obrigado, Alex. Mas por que os
três meses?
_ Não quero que você morra de
repente.[17]
2.
5 – jogo da seleção de filósofos da linguagem comum no cerne de uma perspectiva
da ação verbal
Depois da história (apenas aludida
na nota 13) de um psiquiatra a estranhar o cheiro horrível do seu cliente (que
tão compreensivelmente não coonsegue arrumar namorada), também sobre quem
parece estar “enfeitiçado pela linguagem”, será narrado o causo de dois comensais em um navio, candidatos a interlocutores, que estariam
presos a dois contextos linguísticos nitidamente distintos (“Não ajuda nada o
fato de falarem duas línguas diferentes.”) e seguirão casos de agendas
diversas, inclusive de vida e morte, provendo “analogias patéticas”
(literalmente ridículas, imbecis: goofy
analogies) “de como diferentes quadros linguísticos confundem a
comunicação” (confundem, embaralham, perturbam...). Antes, porém, temos uma
observação-chave sobre formas e finalidades diversas da linguagem, em seus
usos, em diversos contextos, atribuída a outro filósofo de Oxford, John Austin,
tratando de crença – e linguagem – religiosa como radicalmente distinta das
questões “de fato”, descritivas: “dizer que “eu prometo” é, em termos
linguísticos, uma coisa inteiramente diferente de dizer “eu pinto”. Dizer “eu
pinto” não é a mesma coisa que pintar, mas dizer “eu prometo” é a mesma coisa que prometer.” Esta grande
diferenciação ilustra como a “linguagem tem mais de uma finalidade e é usada de
formas diferentes em diferentes contextos”, segundo “os filósofos da linguagem
comum”, e seu parágrafo encerra tipicamente afirmando: “O uso de linguagem
adequada a um quadro linguístico em outro quadro linguístico diferente é o que
provoca confusões filosóficas e pseudocharadas, também conhecidas como história
da filosofia.”
O que bem pode valer por um clímax
argumentativo, e seu desfecho, detalham a noção de se livrar das confusões
filosóficas, mesmo quando (ou se) for
o caso de afirmar a crença em “Deus”: alguns filósofos da linguagem comum enquadraram tal crença como avaliação
de mérito de certos valores (análoga a de críticos... de cinema), enquanto
outros “diziam que a linguagem religiosa expressa emoções: “Eu acredito em
Deus” quer dizer “Quando penso no universo, fico todo arrepiado!””[18]
(...) “Problema resolvido! E 2.500 anos de filosofia da religião vão embora
pelo ralo.” (2,500 years of the philosophy of religion down the tubes).
[1] A
wikipedia informa ter sido traduzida para 25 línguas, e seus autores, Thomas
Cathcart & Daniel Klein, são licenciados em Filosofia pela Universidade de
Harvard. Segundo sua “página oficial”, o primeiro envolveu-se com (escolas de)
Teologia, vindo a publicar, em Theology Today, seu ensaio The
Ontological Argument Works! (sort of) (digamos: “o
argumento ontológico (meio que) funciona!”), foi diretor de operações de um
hospital (também trabalhando com outras organizações médicas) e oficial de
justiça trabalhando com gangues de rua em Chicago. Já Daniel trabalhou
escrevendo para humoristas famosos, televisão, jogo de tabuleiro (Group Therapy), um dos mais vendidos
manuais de sexo, e séries policiais e de mistério (como Elvis Presley). A parceria abarca outras “obras”: Heidegger and
a Hippo Walk through Those Pearly Gates
(usando Filosofia (e piadas!) ao explorar a vida, a morte, o pós-vida, “e tudo
o que houver entre eles”, digamos), Aristotle and an Aardvark Go to Washington
(“Aristóteles e um porco-da-terra vão a Washington”) e Macho Meditations.
[2] O original existe em capa
dura e brochura, com algumas passagens destacadas em vermelho, ao passo que a
tradução brasileira está em elegante versão pocket, preta e branca – exceto
pela capa com colorações marrom-alaranjadas, como as próprias edições
originais.
[3] A passagem refere a
Authier-Revuz (ver nota 12) e Beth Brait, autora de Ironia em perspectiva polifônica (Campinas: Unicamp, 1996), que
nota na interação enunciador-enunciatário do processo discursivo irônico a
particularidade específica do enunciatário ser “necessariamente, previsto,
instaurado na e pela enunciação, tal qual o enunciador e, como tal, funcionar
como “enunciador intérprete” (1996, p. 109).”
[4] Quanto ao estudo da tradução
do humor na Filosofia, calma e paciência: talvez uma constatação, mesmo
enfocando questões textuais de humor em tradução, se limite a observar uma
clássica operação argumentativa, a de redução ao absurdo, se tornando
sistêmica, corrente e difusa.
[5] Relutamos em sinalizar aqui à
força do gerúndio no original “Philogagging
– An Introduction” como alguém poderia relutar em dizer de um filme “o
livro é melhor”, por tratarem-se de registros textuais tão nitidamente
distintos. Pretende-se promover avaliações e exercício analítico, sim, mas
desde um levantamento de características – em que maiores ou mais estreitos
juízos de valor, sobre particularidades das equivalências tradutórias, não
entrem em “primeiro plano” nem recebam um papel necessariamente tão destacado.
Isto por traduções serem composições discursivas povoadas de soluções textuais
conjuntamente apresentadas e – ao menos neste caso – bem apreensíveis. Também
evitaríamos, tanto quanto o possível, remeter às possibilidades tradutórias
alternativas, quando pouco significativas, ou chalaças mais impertinentes – e
nem teremos aqui muita ocasião para discutir ortografia. Ademais, salvo um que
outro dos antigos “Planeta Dos Macacos” (entre bem poucas honrosas excessões a confirmarem regra e definição:), não seria bem
difícil a qualquer adaptação cinematográfica que ela
levasse a melhor, em contrastações de seus efeitos e impactos, frente às
primeiras leituras de obras (no próprio território das ficções!) meramente razoáveis?
Apenas continuarei, portanto,
convenientemente mencionando as expressões originais de cabíveis unidades
tradutórias, como no caso deste neologismo - Fiolgague/Philogagging. Quanto ao aspecto eventualmente sinuoso das
analogias retóricas empregadas nesta
nota, remeto à nota seguinte.
[6] Op.Cit. página 10.
[7] Encontrar um relógio no deserto pode nos fazer
pensar na existência de um relojoeiro, ou inventor, como uma cadeira pode nos
sinalizar a existência de um carpinteiro. Nem por isso falar do “carpinteiro do
universo” servirá de prova para tudo o que se pretenda com a expressão.
Existe ainda uma Nota do Tradutor
elucidando a relevância da acepção de “desígnio”, para a palavra design – que também é design no original.
O estrangeirismo design equivale literalmente a Projeto, mas uma tal opção, não
comentada pelo tradutor, evitaria a rara e instrutiva nota de rodapé a
sinalizar-nos, para além de uma voz tradutória, certa interpenetração
contemporânea das línguas: a palavra design,
incorporada da Língua Inglesa, é uma dessas suficientemente frequentes em nossa
época, por diversos ambientes editoriais, e mesmo em Educação.
Ambas as possibilidades tradutórias
(design e “projeto”) expressariam
intencionalidade, agindo no processo constitutivo dos seres. A teoria das
quatro causas, de Aristóteles (“o” filósofo), chama de “causa final” a esta
agência equivalente a uma explicação teleológica (que oferece a razão para a qual algo foi feito ou
existe) do processo constituinte das formas sensíveis (“causas formais”) pelos
fatores correspondentes (“causa eficiente”, ou “motora”: princípio do movimento, aquilo que dá origem aos seres, o artífice no
caso de artefatos, etc.) agindo na matéria (sim, “causa material”).
A
especulação tocante à gênese de tantos organismos e sistemas oculares tende a
gerar maiores crenças e justificações. Digamos que ao humanismo interesse o que
for de matéria humana, ou mesmo aquela que “A Tempestade” de Shakespeare
igualaria à “dos sonhos”. Sendo tão humano esquecer, pode surgir a pergunta:
haverá outras matérias? Decerto que, entre humanistas e inventores de
modernidade há outros idealistas e
sonhadores, sejam eles “sonhados” ou filósofos mesmo, como um bispo anglicano especialmente representativo, chamado George Berkley
(1685-1753).
Aliás,
consta em contundente e curiosa resenha crítica, que a tradução
portuguesa de nosso livrinho, pela editora Dom Quixote, (em 2008,) o teria chamado de Bishop George Berkeley, “como
se Bishop fosse um nome próprio”. Também são acusadas a sua “falta de rigor de
múltiplas asserções e algumas ingenuidades da tradução” (António Rego Chaves
em, “De «Platão» a Cioran”, disponível em http://www.scribd.com/doc/25961130/Filosofia-Thomas-Cathcart-e-Daniel-Klein). Uma ação
atribuída ao anglicano se encontra na cronologia de “Grandes Momentos na História
da Filosofia” – também repleta das “previsíveis pretensões humorísticas”
imputadas por Rego Chaves ao par de anexos traduzidos em seu país. Data 1731
como ano em que “O bispo Berkeley passa trinta dias num tanque de privação
sensorial e sai sem alterações mentais” (spends
thirty days in a sensory-deprivation tank and emerges with mind unchanged).
[8]
No original: Have you ever spent an
entire evening with Pythagoras? Traduz-se fácil e corretamente “Boa Noite” para “Good Evening”, e
vice-versa, mas – como uma consulta ao dicionário facilmente indica – evening conjuga efetivamente a uma série
de sentidos alusivos à tardinha, à noitinha, e aos eventos culturais que se dão
na primeira parte da noite, ou antes das pessoas se recolherem (quando “good
night” se torna o modo usual para desejar-se “boa noite”).
A presente tradução é portanto mais
picante, por exemplo, do que seria uma politicamente correta “Já passou uma
tarde inteira com Pitágoras?”, e segue imprimindo jocosidade na relação das
pessoas com seus folclores e imaginários, ao transformar conotações expressivas
que também são potências interpretativas
sintomáticas de nossos próprios “interesses culturais” – seja por
mexericos relativos a se passar “uma noite inteira” com outrém, seja pelas
relações entre culturas antigas e saberes filosóficos.
[9] “It depends on what your
definition of `is´ is”: a mudança de sonoridade não parece comprometer o
desconcerto humorístico, mas a tradução corrente talvez opere uma compensação
ao personalizar um ato definitório do pensamento, descartando, preterindo a
formulação “Depende de qual é a sua definição de “é” ”: seria a nossa definição
de “é” realizada mesmo pelo indivíduo
que a adota e pronuncia ali, como suporia ao menos uma interpretação da fala
traduzida para o nosso bom Português brasileiro? O jogo de representações do
julgamento político, no original em inglês, não só não o supunha, como ainda
era alusivo a uma suposta partidarização da inquirição – portanto a uma forma
(ou outra) de politizá-la. A qualidade vaga e/ou sutil da manobra retórica
original faz parte da sua (des)graça, ao passo que a transposição brasileira da
resposta, trazendo à conversa um nível interpessoal, e supostamente
construtivo, rearticula um caráter sofístico que não deixa de ser nosso objeto
inicial de zombaria – imediata e graciosamente remetendo a práticas da própria
Filosofia da Linguagem.
Dentre os fatores que favorecem a
tradução do humor Jogos humorísticos, sobressai-se aqui o conhecimento
contextual de um dado cultural partilhado por nossos povos: o do tipo de
inquérito ao qual o presidente “Bill” Clinton estava sendo submetido – por
abuso e transgressão sexuais de adultério e assédio. Ao fazer parte do folclore
da política e das comunicações, a própria temática, nos jogos de palavras da
linguagem social, volta a lidar com potências identitárias – mas, agora, de
filósofos.
[10] Talvez alguém “como eles” (ou
melhor ainda, “muito zen) possa mesmo fazer tradução intersemiótica em
pantomima, grunhidos e etc., mas nem por isso desviaremos o assunto das
“equivalências tradutórias”, ou correspondências, como preferem alguns, pondo a
perder às apreciações dos acertos tradutório no fraseado de nossa língua, e de
coincidências de valores culturais, como na metáfora de se chegar a algum lugar com “toda essa história” – ou “esse negócio
todo”, como uma ferramenta eletrônica também poderia traduzir.
Assim como certos leitores atentos,
e ainda mais habituados com análises de textos narrativos, podem bem reparar
nas expressões tão estranhas que façam desconfiar da tradução, não nos é
difícil, cotejando uma tradução competente, como esta, notar como uma expressão
cristalizada foi substituída por outra, equivalente, em benefício da fluência,
e do humor – do “texto fisiológico”,
como diriam punhados de alunos. “Jogo de palavras” é “playing games with words”, no original (“brincadeiras com palavras”, se fossemos traduzir mais
de perto, mais palavra-por-palavra), e “Você não me engana” é “I´m finnaly beginning to see through you”
(“finalmente minha visão te atravessa”,
poder-se-ia traduzir).
[11] “reframe questions, and do the next best thing to resolving the puzzles:
make them go away” (reenquadrar as
questões, e fazer a segunda melhor coisa para a resolução de quebra-cabeças
(e intrigas, eu diria): fazê-las ir embora). A tradução corrente
eventualmente praticará o estilo do próprio pensamento que se coloca, evitando
complicar a linguagem, simplificando-a. O cotejo com o original também é parte
que se demonstra ao menos bastante viável, se não criativa, de tradutórias apreciações,
“linguísticas” e contemplativas, que também vamos configurar por meio de unidades
tradutórias – destacadas, sim, por seus efeitos de/em composição textual
(talvez estranhas ou chamativas, mas em textos sempre intuíveis) enquanto emaranhado(s) ou “nós”.
[12] Cristina Lopes Perna:
“Conforme colocado por Bakhtin, a atuação das
diferentes formas de recuperação do já-dito, do exterior à enunciação em curso,
funciona da mesma maneira que a atualização do signo em palavra. Em outras
palavras, o signo é um elemento pertencente a um sistema, que tem um
significado que vai ser identificado pelo conhecedor desse sistema. A palavra,
por sua vez, é uma unidade de discurso que participa de uma dimensão diferente,
na medida em que, contextualizada, atualiza de maneira particular o signo,
exigindo do receptor a competência interpretativa, a compreensão, e não
simplesmente a identificação.”
[13] A expressão, colhida do
parágrafo anterior à Conclusão do artigo de Cristina Lopes Perna situa-se num
contexto de criação de sentidos, entre rejeitados ou integrados, aceitos. “O
processo irônico nesse caso parece sintetizar essa não-coinciência na medida em
que, mesmo não oferecendo comentários que designem sua rejeição ou aceitação, a
dupla enunciação da ironia espelha esse processo e exige sua percepção por
parte do enunciatário. Num texto mais longo, como a página de um jornal ou
mesmo uma narrativa literária, essas estratégias podem aparecer para
estabelecer confluência discursivas e, ao mesmo tempo, diferenciá-las.”
[14] Authier-Revuz, analizado por
Cristina Lopes Perna, é a autora que caracteriza, exemplificando, quatro formas
de não coincidência do discurso. A primeira forma, um tipo de perspectiva já
levantado por Bakhtin, é a da não-coincidência interlocutiva que se dá entre
enunciador e destinatário. “A autora localiza este fenômeno nas diferentes
formas de comentários que representam o fato de uma palavra, uma maneira de
dizer, não ser partilhada pelos dois protagonistas de uma enunciação, fato esse
que constitui uma ameaça à interação.” Também “conduziu um levantamento
detalhado onde cita um grande número de exemplos do tipo “X, compreende...”,
“digamos X”; “X, se você desejar”, “X, se você percebe o que eu quero dizer”,
X, mesmo sabendo que você não gosta da palavra”. Parece-nos plausível
transportar essa estratégia para uma dimensão mais ampla que, sem excluir essas
formas linguísticas precisas, apresenta-se como um processo global e
fundamental na constituição da ironia.”
[15] Segunda forma de não
coincidência do discurso, das quatro possíveis de serem mapeadas no processo
irônico, conforme Authier-Revuz supracitado.
[16] a ponto de uma rara subversão
tradutória (facilmente apontável como “erro” de tradução...) fazer uma
diferença apenas simbólica: quando se comentaria a confusão entre a singular denotação “de “vida artística” (que no
caso deste exemplo implica limpar a sujeira dos elefantes) com a conotação
emocional de “vida artística” (em que estar sob a luz dos refletores é tudo o
que importa”) lê-se conotação. Como é
que aquilo que seria diametralmente oposto, e errado, pode se tornar uma
diferença tão relativamente simbólica? Tanto pela estrutura argumentativa em
que se insere, decerto, quanto pela forma como o “lapso” (o termo trocado, de
“conotação” no lugar de “denotation”)
está cercado de soluções tradutórias satisfatórias – como aquela para pseudo puzzles (pseudopcharadas: “também conhecidas como história da filosofia”),
entre algumas outras já apontadas.
[17]
“I wouldn´t want you to die suddenly.” Já tão mais familiarizados com o texto tradutório, me animo a manifestar
uma diferença de gosto, estilística, ainda que pouco relevante – se não como
novo exemplo de (estreito) juízo de (maior) valor que por si só (ver nota 5)
não valeria a pena debater – em mais uma preferência pela solução pedestre:
“Não gostaria que você morresse de repente” (de resto, ela nem é tão curta, nem
apresenta uma forma que soe tão folclórica... de países que não achem tão
horroroso falar de morrer, digo, e em que até se apreciaria uma abordagem mais
direta e “germânica”).
[18] Admirável série de eficazes
soluções tradutórias para expressões que já soam engraçadas, como goosebumps, muddles, Poof! Pussle
rsolved!, down the tubes...
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